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30 outubro, 2011

Divergência

          Ele sempre sabia quando ela estava preocupada com alguma coisa, conhecia todos os sinais. Ela se retraía. Começava a ficar quieta e divagava. Qualquer coisa desviava sua atenção dele - um barulho na rua, uma porta batendo ao longe, o noticiário do tempo - como se desviar para aquelas coisinhas corriqueiras fosse criar um porto seguro entre eles dois. Ela se esquecia de rir e se tornava quase comicamente séria e ponderada em relação a tudo.
          Não tinha lógica ela estar preocupada, embora soubesse que preocupação e lógica raramente andavam juntas. Iriam se afastar ainda mais, era verdade, mas ele nem teria aceitado o emprego se ela não o tivesse incentivado, o obrigado, na verdade. Ela não deixaria que ele perdesse aquela chance. Mas não que ele iria detestar. Era exatamente o tipo de coisa que ele sempre quis fazer, um emprego dos seus sonhos, e ambos sabiam disso.
           Ela disse que tinha um ótimo programa de especialização em Campinas e a orientadora dela, em Londrina, é que selecionava os participantes. Sem dúvida ela conseguiria. Aquilo não ajudaria na distância, mas disse a si mesmo que não faria mal tentar por seis meses e aceitou o emprego. Qualquer coisa buscaria ela e poderiam ter um apartamento. Ela montaria seu próprio escritório com a ajuda dele.
          Se rendeu. Foi para longe por três semanas, para um treinamento de verão. Agora ele estava de volta e ela ali, com olhar vago e silenciosa. Ele não ficou surpreso.
          Abriu caminho até ela, dando cotoveladas e empurrões. Antes de se sentar, se debruçou na mesinha do bar para beijá-la. Ela não levantou os lábios para ele, que teve que se contentar com um beijinho na testa.
          Havia um copo de martíni vazio diante dela e, quando a garçonete se aproximou, pediu mais um e uma cerveja para ele. Ele estava curtindo a aparência dela, a linha suave do seu pescoço, o brilho dourado do seu cabelo na luz fraca, e a princípio só deixou ela falar, murmurando na hora certa, meio ouvindo. Ele só começou realmente a prestar atenção quando ela disse que ele deveria pensar nessa temporada longe como umas férias do relacionamento deles, e mesmo nessa hora achou que ela estava tentando fazer graça. Não percebeu que aquilo era sério até ela dizer que achava que seria bom os dois passar um tempo com outras pessoas.
          - Sem roupa - ele disse.
          - Não teria problema algum - disse ela, tomando metade do martíni em um só gole.
          Foi do jeito que virou a bebida, mais do que aquilo que tinha dito, que provocou um choque gelado de apreensão nele. O drinque era pra criar coragem e já tinha tomado um - talvez dois - antes dele chegar.

[continua]