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19 abril, 2010

Casal Casal


Lembrou-se do garoto de anos atrás, vestido com aquele surrado e horrível casaco preto.
Absolutamente dominado por idéias obscuras, aquele dia de cálido só tinha o sol tímido que se projetava do centro do pátio em que estava.
Sentado em um banco gelado com a pintura descascada, tudo parecia triste, principalmente aquelas folhas secas caídas aos seus pés.
Uma voz atravessava a parede feita de madeira, chegando aos ouvidos dele, que pouco se importava com qualquer que fosse o significado daquele monólogo.
Não sabe, até hoje, se o casaco era realmente horrível, se estava realmente frio, se o banco era mesmo velho e, também, se a voz e o assunto eram realmente entediantes. Mas foi assim que ele interpretou, então só podia ser verdade, não?
Uma campainha toca e centenas de vozes se propagam, mas nada retira o menino de seus pensamentos. Levantou-se para beber água, tendo certeza que voltaria a sentar segundos depois sem nenhuma surpresa. Assim o foi.
Aquele era realmente um dia a não ser lembrado.

Quem nunca contou uma história e, após determinada parte, se dá conta que boa parte do que foi contado é fantasioso, criado por nossas cabeças para manter uma sequência lógica dos fatos?

            Ele não sabe, até hoje, se isto é algo pessoal ou comum entre as pessoas. Mas ele sempre fez isto e, por este motivo, acreditou que dois olhos acompanhavam alguns de seus perdidos passos pela área cimentada.
Como aquele jovem tende a criar fantasias para seguir uma sequência lógica de fatos, ele acreditou que existia, também, intenção na atenção. Nem cogitou que era provável que aqueles olhos claros tivessem, como única motivação, apenas curiosidade.
Deixou a racionalidade de lado e deu um sorriso leve na direção daquele olhar.
A partir dali, tendo de um lado um maldito pessimista e do outro uma garota de aceno tímido, é que o dia mudou.

Foi para sua casa ao final da aula e se deitou, acordando quase cinco anos depois. Acreditava que faria tudo da mesma maneira, por mais espinhoso o percurso tivesse sido até agora.
‘Um dia a ser lembrado’, ele diria mais tarde.

Escreveu.

12 abril, 2010

"A Interpretação dos Sonhos"

        Muito se ouve sobre sonhos. Desde o básico até teorias mirabolantes, passando da realidade-vivida, exercícios automáticos da mente e outras coisas mais absurdas, como visões do futuro.
        Aquele garoto se interessava por tal assunto e, pode-se acrescentar, gostava de sonhar.
        Mas este filosofar, num domingo parado, não era o que ele queria. Ele não estava, ali, querendo aprender mais tal assunto ou criar mais uma opinião mirabolante (e, possivelmente, contraditória) sobre sonhos e suas origens.
        A única coisa que incomodava aquele jovem era aquele maldito acordar. Como é possível termos certeza que sonhamos se não nos lembramos de absolutamente nada entre o fechar de olhos e o acordar do dia seguinte?
        Não sabia se havia lido ou inventara aquela teoria naquele momento, mas considerou que aquilo era chamado de sonho invisível.
        Sim, sonho invisível. Daqueles mesmos, que você sabe que teve e, tem dias, até chega a abrir o olho e a fechá-lo novamente, voltando para o calorzinho que aquilo te traz.
        O único detalhe de uma parte destes sonhos é o acordar. Você é tomado por uma lucidez que parece te dar um jato de... esquecimento.
        E era esquecimento que o incomodava. Esse acordar que lhe retirava aquele calorzinho agradável da cabeça. Calorzinho que ele sabia de onde vinha, sabia de quem vinha, sabia de tudo... mas não se lembrava.
        Não soube ao certo se sonhou, pois sabemos como estes sonhos invisíveis, aqueles que não nos lembramos, incomodam nossa memória com uma certeza de que aconteceu e a contraditória dúvida do branco na nossa mente.
        Mas devemos admitir com todo clichê e romantismo que se cabe a esta situação: ele adormeceu pensando nela.

07 abril, 2010

Diferenças



[ Primeira ]

Ele: Não é bobagem eu te ver caminhando por ai e ficar tremendo, zonzo, tarado e, ao mesmo tempo, cheio de orgulho porque, porra, é comigo que você passa as tardes. Mas...
Ela: Mas...?
Ele: Mas de que adianta a gente passar as tardes juntos se eu nem sei o que a gente é.
Ela: Como assim?
Ele: O que a gente é, ora.
Ela: Desculpa, mas não entendi mesmo.
Ele: Ah, não me faça falar.
Ela: Falar o quê?
Ele: Falar em... namoro.

     Ela suspirou ao mesmo tempo que envolveu seus braços no pescoço dele, os olhos fechados e, em um beijo, respondeu o que ele não perguntou, mas cuja resposta estava ansioso para ouvir e sentir.


[ Segunda ]

Ele: Não é bobagem eu te ver caminhando por ai e ficar tremendo, zonzo, tarado e, ao mesmo tempo, cheio de orgulho porque, porra, é comigo que você passa as tardes.
Ela: Cadê o seu ‘mas’?
Ele: Que ‘mas’?
Ela: Da última vez, você usou uma frase parecida, mas ela tinha um ‘mas’ no final.
Ele: Como assim?
Ela: Você falava do que a gente é, ora.
Ele: Desculpa, mas não me lembro mesmo.
Ela: Então você vai me fazer falar.
Ele: Falar o quê?
Ela: Falar em... namoro.

     Ele suspirou ao mesmo tempo que envolveu seus braços no pescoço dela, os olhos fechados e, em um beijo, respondeu o que ela não perguntou, mas cuja resposta estava ansiosa para ouvir e sentir.

06 abril, 2010

Desencontro

     Desceu do ônibus de ombros contraídos. A testa levemente franzida e o olhar concentrado nos próprios pés.
     Andava para local nenhum. As garotas olhavam curiosas para o rapaz de maxilar marcado e não havia uma pessoa que não imaginasse o que e passava por aquela cabeça.
     Ela, como sempre, levava um sorriso tímido no rosto. Camisa de cor pálida e um caminhar leve. Somente os bons observadores percebiam o pingo de frustração em seus lindos olhos verdes.
     Aquela figura densa e ansiosa prendeu a atenção da garota. Não como os outros. Não. Pouco lhe importava os belos traços, o corpo robusto e o ar misterioso.
     Foi como um tapa inesperado, que a deixou perplexa e sem fala. Jamais vira tanta vida em uma pessoa. Foi algo estranho, como se tivesse encontrado a si mesma.
     Quando se deu conta, estava a segui-lo. Entraram no correio e ele tirou uma carta da mochila que não parecia cheia. Uma mochila vazia e um homem que parecia carregar o mundo nas costas.
     Ela não sabia para onde ir. Foi até lá apenas para sair de casa e sentiu-se envergonhada quando percebeu o que acabara de fazer. Nunca teve o hábito de perseguir pessoas e, mesmo que o tivesse, o seu desejo de invisibilidade não permitira qualquer aproximação.
     Comprou um envelope qualquer para não sair de mãos vazias e se dispôs a fazer o inusitado (em seu mundo): aproximou-se dele e perguntou o horário.
     Passava do meio dia e ele logo tornou a olhar para os próprios pés e caminhar.
     Um turbilhão invadiu o seu corpo. Somente ela sabia as forças que juntara e o esforço que fizera para dirigir uma palavra qualquer ao rapaz. E ele caminhava como se aquele instante não tivesse existido, e nada houvesse atrapalhado seu pensamento.
     Os passos leves teriam caminhado em direção contrária, não fosse a força que a sugava para junto dele. O homem parou por alguns instantes. Olhou o relógio (ato que confirmou a insignificância que ela anteriormente sentiu) e mudou de direção.
     Entraram em um café, com mesas pequenas e redondas, quase todas cheias.
     Chegou o momento de fazer-se notar. Buscou coragem sabe-se lá de onde e com a voz trêmula perguntou se ele não era fulano qualquer.
     Ele, pela primeira vez, pareceu descer ao mundo. Respondeu que não e, para surpresa da moça, prolongou a conversa.
     Sentaram na mesma mesa. Ele falava, sem olhar nos olhos, apenas falava. Ela prestava atenção a cada detalhe e não se atrevia a interromper. Falou sobre a dificuldade em largar seus vícios, e como algumas perdas estavam diretamente ligadas aqueles problemas. Comentou sobre a mudança de temperatura, a música que tocava e o jeito engraçado do moço atrás do balcão.
     Tinha ouvidos voltados para si mesmo. Cada palavra pronunciada por ela ativava uma área de sua memória, e ele punha-se a falar.
     Ele foi embora. Escreveu uns números em um pedaço de papel e deixou na frente dela.
     Ela, estática, olhou os números sobre a mesa e recordou brevemente o acontecido. Angustiou-se. O garoto não disse como se chamava, e não se importou em perguntá-la.
     Ficou ali por mais alguns minutos. Enxergou uma muralha. Levantou-se, amassou o papel entre os dedos e o jogou dentro da bolsa.
     Ela não ligaria. Continuou com seus passos leves e desejou não ter saído de casa naquele dia. Tinha novas dúvidas sobre si mesma.
     Segundos depois subiu no ônibus um homem de ombros relaxados e expressão calma. Desejou ter ficado mais tempo no café...

     [...abre porta, abre...]