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06 abril, 2010

Desencontro

     Desceu do ônibus de ombros contraídos. A testa levemente franzida e o olhar concentrado nos próprios pés.
     Andava para local nenhum. As garotas olhavam curiosas para o rapaz de maxilar marcado e não havia uma pessoa que não imaginasse o que e passava por aquela cabeça.
     Ela, como sempre, levava um sorriso tímido no rosto. Camisa de cor pálida e um caminhar leve. Somente os bons observadores percebiam o pingo de frustração em seus lindos olhos verdes.
     Aquela figura densa e ansiosa prendeu a atenção da garota. Não como os outros. Não. Pouco lhe importava os belos traços, o corpo robusto e o ar misterioso.
     Foi como um tapa inesperado, que a deixou perplexa e sem fala. Jamais vira tanta vida em uma pessoa. Foi algo estranho, como se tivesse encontrado a si mesma.
     Quando se deu conta, estava a segui-lo. Entraram no correio e ele tirou uma carta da mochila que não parecia cheia. Uma mochila vazia e um homem que parecia carregar o mundo nas costas.
     Ela não sabia para onde ir. Foi até lá apenas para sair de casa e sentiu-se envergonhada quando percebeu o que acabara de fazer. Nunca teve o hábito de perseguir pessoas e, mesmo que o tivesse, o seu desejo de invisibilidade não permitira qualquer aproximação.
     Comprou um envelope qualquer para não sair de mãos vazias e se dispôs a fazer o inusitado (em seu mundo): aproximou-se dele e perguntou o horário.
     Passava do meio dia e ele logo tornou a olhar para os próprios pés e caminhar.
     Um turbilhão invadiu o seu corpo. Somente ela sabia as forças que juntara e o esforço que fizera para dirigir uma palavra qualquer ao rapaz. E ele caminhava como se aquele instante não tivesse existido, e nada houvesse atrapalhado seu pensamento.
     Os passos leves teriam caminhado em direção contrária, não fosse a força que a sugava para junto dele. O homem parou por alguns instantes. Olhou o relógio (ato que confirmou a insignificância que ela anteriormente sentiu) e mudou de direção.
     Entraram em um café, com mesas pequenas e redondas, quase todas cheias.
     Chegou o momento de fazer-se notar. Buscou coragem sabe-se lá de onde e com a voz trêmula perguntou se ele não era fulano qualquer.
     Ele, pela primeira vez, pareceu descer ao mundo. Respondeu que não e, para surpresa da moça, prolongou a conversa.
     Sentaram na mesma mesa. Ele falava, sem olhar nos olhos, apenas falava. Ela prestava atenção a cada detalhe e não se atrevia a interromper. Falou sobre a dificuldade em largar seus vícios, e como algumas perdas estavam diretamente ligadas aqueles problemas. Comentou sobre a mudança de temperatura, a música que tocava e o jeito engraçado do moço atrás do balcão.
     Tinha ouvidos voltados para si mesmo. Cada palavra pronunciada por ela ativava uma área de sua memória, e ele punha-se a falar.
     Ele foi embora. Escreveu uns números em um pedaço de papel e deixou na frente dela.
     Ela, estática, olhou os números sobre a mesa e recordou brevemente o acontecido. Angustiou-se. O garoto não disse como se chamava, e não se importou em perguntá-la.
     Ficou ali por mais alguns minutos. Enxergou uma muralha. Levantou-se, amassou o papel entre os dedos e o jogou dentro da bolsa.
     Ela não ligaria. Continuou com seus passos leves e desejou não ter saído de casa naquele dia. Tinha novas dúvidas sobre si mesma.
     Segundos depois subiu no ônibus um homem de ombros relaxados e expressão calma. Desejou ter ficado mais tempo no café...

     [...abre porta, abre...]

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